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sexta-feira, 30 de setembro de 2011




No Caminho, com Maiakóvski

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.


Trecho do poema "No caminho, com Maiakóvski", de Eduardo Alves da Costa.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011



O Homem e a Mulher

O homem é a mais elevada das criaturas.
A mulher, o mais sublime dos ideais.
Deus fez para o homem um trono,
e para a mulher, um altar.
O trono exalta.
O altar santifica.

O homem é o cérebro.
A mulher, o coração.
O cérebro cintila de luz.
O coração emana o amor.
A luz fecunda.
O amor ressuscita.

O homem é forte pela razão.
A mulher é invencível pelas lágrimas.
A razão convence.
As lágrimas comovem.

O homem é capaz de todos os heroísmos.
A mulher, de todos os martírios.
O heroísmo enobrece.
O martírio sublima.

O homem tem a supremacia.
A mulher, a preferência.
A supremacia significa a força.
A preferência representa o direito.

O homem é um gênio.
A mulher, um anjo.
O gênio é imensurável.
O anjo, indefinível.

A aspiração do homem é a suprema glória.
A aspiração da mulher é a virtude extrema.
A glória engrandece.
A virtude diviniza.

O homem é um código.
A mulher, um evangelho.
O código corrige.
O evangelho aperfeiçoa.

O homem pensa.
A mulher, sonha.
Pensar é ter no crânio uma larva.
Sonhar é ter na fronte uma auréola.

O homem é o oceano.
A mulher, o lago.
O oceano tem a pérola que adorna.
O lago, a poesia que deslumbra.

O homem é a águia que voa.
A mulher, o pássaro que canta.
O voo é o domínio do espaço.
O canto, a conquista da alma.

O homem é o templo.
A mulher, o sacrário.
Ante o templo nos desvendamos.
Ante o sacrário nos ajoelhamos.

O homem está onde a terra termina.
A mulher, onde começa o céu.


Victor Hugo.

terça-feira, 23 de agosto de 2011


ANIVERSÁRIO

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
e a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
de ser inteligente para entre a família,
e de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
o que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
o que fui de amarem-me e eu ser menino,
o que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje como a umidade no corredor do fim da casa,
pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
o que eu sou hoje é terem vendido a casa,
terem morrido todos,
estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
por uma viagem metafísica e carnal,
com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Fernando Pessoa. ( Álvaro de Campos. )

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

DIA DOS PAIS

 
DIA DOS PAIS

Papai está tão velhinho,
tem a mão branca e comprida,
parecendo a sua vida,
longa vida que se esvai.
E eu o lembro quando moço
de uma atlética altivez.
Ah! Tinha força por três!
Você se lembra, papai?
Menino, ouvia dizer
que você era um gigante.
Eu ficava radiante
e também me agigantava.
Porque toda madrugada,
eu quentinho do agasalho,
ao sair para o trabalho
o gigante me beijava.
Sua grande mão de ferro
parecia leve, leve
naquela carícia breve
que da memória não sai.
Depois… um beijo em mamãe
e o meu gigante partia.
E a casa toda tremia
com os passos de papai.
Mas agora o seu retrato
muito moço, muito antigo,
se parece mais comigo
do que mesmo com você.
Você já lembra vovô
e, à medida que envelhece,
papai, você se parece
com mamãe, não sei por quê.
Você se lembra, papai?
Quando mamãe, de repente,
caiu de cama, doente,
era o pai quem cozinhava.
Tão grande e desajeitado
a varrer… Quando eu o via
de avental, papai, eu ria;
eu ria e mamãe chorava.
Eu quis deixar o ginásio
para ganhar ordenado,
ajudar meu pai cansado,
mas tal não aconteceu.
Papai disse estas palavras:
Sou um operário obscuro,
mas você terá futuro,
será melhor do que eu.
Eu? Melhor que este velhinho
a quem devo o pão e o estudo?
Que é pobre porque deu tudo
à Família, à Pátria, à Fé?
Meu pai, com todo o diploma,
com toda a universidade,
quisera eu ser a metade
daquilo que você é.
E quero que você saiba
que, entre amigos, conversando,
meu assunto vai girando
e no seu nome recai.
Da sua força, coragem,
bondade eu conto uma história.
Todos vem que a minha glória
é ser filho de meu pai.
“Um dia eu fui tomar banho
no rio que estava cheio.
Quando a correnteza veio,
vi a morte aparecer.
Papai saltou dentro d’água
nadando mais do que um peixe,
salvou-me e disse:_ Não deixe!
Não deixe mamãe saber!”.
Assim foi meu pai, o forte
que respeitava a fraqueza.
Nunca humilhou a pobreza,
nunca a riqueza o humilhou.
Estava bem com os homens
e com Deus estava bem.
Nunca fez mal a ninguém
e o que sofreu perdoou.
Perdoa então se lhe falo
daquilo que não se esquece.
E a minha voz estremece
e há uma lágrima que cai.
Hoje sou eu o gigante
e você é pequenino.
Hoje sou eu que me inclino.
Papai… a bênção, papai.

Giuseppe Ghiaroni



segunda-feira, 18 de julho de 2011




Serenata no Céu

Zoilos ! Parvos Aretinos !
Criticóides pequeninos !
Passadistas refratários !
Futuristas - legionários
dos maiores desatinos !
Poetastros retardatários !
Reis e Príncipes cretinos !...

Vêde, pobres cerebrinos,
minha glorificação !

Numa dessas noites belas,
tôda branca, tôda nua,
noite de recordação,
eu ouvi Deus e seus anjos,
em serenata às estrelas,
cantando dentro da lua,
o meu "Luar do Sertão".

Catullo da Paixão Cearense.

quarta-feira, 25 de maio de 2011





Onipresença

Foste a maior aventura,
e a mocinha da gravura
que pendurei na parede
da oficina do meu quarto.
Foste mais, foste visagem,
a assombrar com tua imagem
os anseios de meu dia,
as noites de não dormir.
Foste aquela brincadeira,
que durou a vida inteira
e que nunca mais termina,
de juju, de esconde-esconde.
Foste diaba e rainha,
de sala, alcova e cozinha,
da rua, das mil procuras,
tão poucas na minha cama.
Foste, afinal, pesadelo
que embaraçou o novelo
da linha de bordar sonhos
tecidos pela metade.

Alberto Lisboa Cohen